SOBRE BIRA

 

RES,

27 de junho de 2019

Como pinçar, arrancar, sentido de alguma coisa, ferrão.

Bira sentado pensando

Percebo bira, arrisco arisco contato com ele 

Percebo — e quero escrever sentir de outro modo - principalmente escrever estar de outro no próprio modo como procedo meu modo de apreensão - na verdade estou interessado na tragédia entre uns minutos e outros minutos. Como o sentido é aferroado? Como a memória se constrói? Como sei de mim o que eu sei de mim? E como sei de mim o que eu sei de mim deste modo específico que sou eu? Se eu não fosse eu o que eu saberia de mim? E deste modo teria um conhecimento de mim outro? Aferroar a coisa. Invadir a caixa preta do modo como estou dizendo? Revolucionar não de fora, da aparência, mas da constituição da coisa? Lascar a poesia, ferir a junção necessária até ter a junção imprópria entre o que estou dizendo e o que sei remotamente que gostaria de estar capturando. Bira me vendeu dois canivetes por um preço não condizente (neste caso, muito abaixo de seu valor real), Bira estava alterado, em suspensão, suspendido, distante, pensativo realmente não é a palavra certa, se não é a palavra certa, qual é a palavra certa numa ocasião específica como agora? Há a palavra certa? Ou o certo é um constructo humano para nós suportarmos a vida? A insuportável presença constante do que chamamos vida, que na verdade não pode ser o que chamamos vida, pois o que chamamos vida é somente um recorte que nossa cognição faz do todo que é realmente o fenômeno. Dentro de nosso recorte a morte é vital, porque determina nosso estado de ânimo, vida para mim já é apenas suposição entre estados aleatórios entre minha percepção reduzida de lutas infinitas entre viver e morrer. Entre estar vivo e estar morto: vivo fragmentos de mim. Vivo restos de percepções de mim, o que eu chamo de eu são espasmos insignificantes de consciência, provavelmente ainda muito sujos, poluídos de tantas obliquidades, sou um plano oblíquo. Que na realidade vejo muito muito mal. Os planos de consciência, de escrita, as dimensões que a escrita pode tomar, seus rumos, seus vendavais, a dor: a maldita dor de perceber-se em vida. Onde algo escorre-se-me por entre os dedos. Por entre se e me, vejo me sendo. Espasmo de escorrer-me todo em procissão-eu, procissão-te, procissão-se, proscrito oscilo entre estar aqui e lá, onde a coisa toda toda ida me vida válida em solo perdido. Aqui estou em pele, aqui Bira já não importa, nunca realmente importou, não vejo o outro vejo o que me é permitido ver de mim no outro, o outro é território impossível para mim, mim de mim sou aqui o que me resta apenas. Outro de outro outridade atrás da porta existencial: ferrão de dor. Ferroada. Nuance interceptada invariante, estilosa, entupida, estúpida forma de mim ver mim, quem sou? Nunca saberei. Não me é dado ver mesmo Bira sentado. Ver-se no seu estado primordial. Especulações de Bira. Fantasias. O verossímil se esconde de mim, o factível é por mim inalienável ao que eu desejo dele. O que eu desejo, antecede o que eu sou, assim sendo, remoto sentimento de perda, devorado pelo sentido, vago pelas costas do dizer. Esguio o vento da madruga vem bater à minha porta. Não precisa muito, estou escancarado o suficiente já, de defesas baixas, adentra em mim toda noite. Rebaixa a defesa ancestral, vejo me assim em estado de desconfiança total entre a palavra e a palavra, alcoólica a palavra diz não de eu autor mas de si mesma, o que é si mesma, na verdade ela é indiferente, é uma brutalidade de só dizer. Só estar. Sem signo, portanto sem elucubrações, ela desenterra para mim assombrações longínquas, tão longínquas que me esqueço neste texto, e o outro impossível abre um sorriso.

 

Desabrigado de mim estou em estado de perceber que realmente não percebo. O outro é assombração. Pura imaginação de estar vendo, o que eu chamo de realidade mesmo é fantasia, o que eu nomeio me nomeia antes, me antecede, e me sucederá. Eu me sucederá num lugar onde nunca estive, nunca estive em mim, pois se estivesse estaria em gozo, escorrendo como geleia no paredão que me separa do sentido. Entre eu e eu, só a fantasia, pronomes bloqueiam-me de mim de fato. De fato estou na superfície, infame superfície, cavoco cavoco cavoco, burro de carga do sentido, cavoco cavouco cavouco cavouco cavouco no cavocar, até achar água de dizer, cavo minha sina, porra! Merda! A coisa escapa, não há jeito, aqui sou caça nunca caçador. Presa, entre um sentido e outro, vagando por estações vazias onde não há paradas, subestações que não foram nomeadas, não existem no mapa. Estados psíquicos não conhecidos, não há medicamento para o que não tem sintoma.

Atelier do Centro - G1

Rua Epitácio Pessoa, 91, República, São Paulo

+55 11 3129-3977 // +55 11 99537-5396 (RES)

Monday - Friday: 8am - 5pm

atelierdocentro@gmail.com

Galpão do Centro - G2

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

Residência Atelier Luca Parise - G3

Rua Teodoro Baima, 51, SL 2, República, São Paulo 

www.lucaparise.co

CECAC - Centro de Estudos Conglomerado

Atelier do Centro - G4

Rua Teodoro Baima, 51, SL 1, República, São Paulo

Atelier do Centro - G5

Rua Teodoro Baima, 88, República, São Paulo

Coleção Àlex Muñoz - G6

Carrer del Segle, 5, Premià de Mar

08330 - Barcelona, España

OPCAC - Oficina Prática Conglomerado Atelier do Centro

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

www.opcac.xyz

Vernacular - Editora Atelier do Centro

www.ccsvernacular.com

www.medium.com/@carolccs

  • YouTube
  • Instagram

copyright © 2020 Conglomerado Atelier do Centro, todos os direitos reservados