DEPOIS DO LIMITE

RUBENS ESPÍRITO SANTO

Segunda feira, dia 29 de outubro de 2018  

 

Quando toda engenharia cessa, ainda há uma engenharia 

Quando todo recurso se recolhe ainda há uma chance 

Quando não tenho mais sangue o sangue brota de um lugar que eu desconhecia que desconhecia em mim, rachado como lenha seca estou pronto a arder em chamas se é para esquentar lugares ainda frios de mim, com dor ou sem dor, pouco importa, os ossos se realinham em meu corpo e berram diante do ouvido do impossível, que estou em pé, de uniforme, e pronto, pronto para fazer o necessário para que prossigamos.

Prosseguir aqui é um caminho invertido, como é invertido o caminho para a salvação. Como o próprio caminho se inventa estando nele, caminhando, tropeçando, meu caminho tropeço nele — tropeção, escreve até tropeçar no que realmente quero dizer, humildemente procuro minha escrita ao escrever, mostrando o próprio percurso de uma vontade, de um fazer, um rastro. Quero dizer aqui que engendrei em mim um eu tetraplégico para nunca esquecer que estou servindo aqui a algo muito maior que eu. Resta explicar muito maior Que eu: resta explicar o que resta? Resta explicar muito, maior, o sinal da Cruz? Maior que eu. Tábua de salvação. Tem problemas óbvios aqui. É tão real o maior de mim que me sinto violado constantemente pelo menor maior de mim como estratégia para estar vivo. A reza, a benzeção, o ritual, a sacristia, a missa, a liturgia, a oração, os mandamentos, os sacramentos, os ensinamentos: tudo isto é parte dos meus membros quebrados - estou agora em pleno estado de um homem transpassado, a um passo, a uma vírgula, sinto o bafo da coisa — sobre mim, rondando — a de me fazer rodopiar, sem fôlego vejo sua cara, de tão cansado não retenho sua fisionomia, num sopro sei que fui levado. Convalesço de não ter mais eu para próxima empreitada.